quinta-feira, 28 de outubro de 2010

a implosão da mentira

Affonso Romano e a implosão da mentira

Por Nicolas Timoshenko
No dia 08 de abril de 2010 o poeta Affonso Romano publicou em seu blog o seguinte (e nós dos blogs que tratam de literatura repercutimos):
Me vejo obrigado a uma vez mais a desmentir um texto que continua a circular doidamente na internet com meu nome.
Agora piorou. Adicionaram o seguinte:
"Esse texto deve se tranformar na maior corrente que a internet já viu, para que na época das eleições consigamos frear a escalada do mal!".
Favor divulgar o poema correto que não tem nada a ver com a contrafacção que anda pela internet, este poema é de 1984, escrito durante a ditadura e o episódio do 'RIO CENTRO'
A Implosão da Mentira
Affonso Romano de Sant'Anna
Fragmento 1
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.
Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegre/mente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.
Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.
Fragmento 2
Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.
Mentem. Mentem caricatural-
mente.
Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.
Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre.E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial/mente,
mente partidária/mente,
mente incivil/mente,
mente tropical/mente,
mente incontinente/mente,
mente hereditária/mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
diária/mente.
Fragmento 3
Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.
Mentem como se Colombo partindo
do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.
Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.
Fragmento 4
Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.
Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.
Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.
Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.
Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.
Fragmento 5
Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.
E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.
(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em "Poesia Reunida" - L&PM,1999, v.2)

domingo, 12 de setembro de 2010

Na luz do teu olhar


NA LUZ DO TEU OLHAR 

 
(22º Carijo da Canção Gaúcha – Palmeira das Missões/RS)

Autor: Rômulo Chaves
Músico: Piero Erno
Intérprete: Jean Kirschoff








Talvez uma estrela se faça sinuela pra este brilho teu
Ou quem sabe o vento perceba o lamento deste meu canto
Que esta guitarra soltou as amarras de um jeito meu
Trazendo a essência da flor da querência nos teus encantos

Minha nostalgia nestas noites frias se faz companheira
E a seiva do amargo, um vício que trago, me acalma um pouco
Amanso esta vida buscando guarida no olhar da boieira
Na luz que me guia sou parco em poesia buscando teu porto, buscando teu porto

Então no momento em que meu sentimento busca teu destino
A rima singela te traz às janelas do meu sonhar
Pra ser feliz no rancho que fiz no rincão sulino
Me sinto completo tendo por perto a luz do teu olhar

O meu coração que já foi redomão se quedou tão manso
Meus olhos curtidos ficaram perdidos querendo te ver
Na noite xirua, na calma da lua, me trouxe remanso
Busquei meu caminho seguindo os carinhos do teu bem querer

Com sinceridade sem meias verdades te digo o que sinto
A inspiração me deu voz e canção pra o teu agrado
Pois sei que preciso ganhar teu sorriso por isso não minto
Te digo que amo, em meu peito te chamo: vem ficar ao meu lado. Vem ficar ao meu lado!

Então no momento em que meu sentimento busca teu destino
A rima singela te traz às janelas do meu sonhar
Pra ser feliz no rancho que fiz no rincão sulino
Me sinto completo tendo por perto a luz do teu olhar

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Remoendo o passado

Não sei porque eu insisto em olhar fotos, tantas fotos felizes que me deixam tão triste. Já hoje a tarde falava com uma amiga querida, uma pessoa maravilhosa que vim a conhecer recentemente, que sou daquelas pessoas que vivem mais de passado do que de futuro, que trago no peito as memórias todas, boas e ruins, das minhas vivências.
Ao rever as fotografias, que são imagens fixas do passado, vejo tantos sorrisos e momentos felizes em rostos de pessoas que amei que ainda amo muito. A tristeza vêm quando não posso estar mais tão próxima de quem eu amo, daquelas pessoas com quem verdadeiramente partilhei uma amizade sem enganos e nem decepções. Mas hoje, o sentimento que grita mais forte é o de mágoa quando vejo sorrisos de pessoas falsas, parecendo ser “a (o) melhor amiga (o) do mundo” e de todos.
Me pergunto, podem existir pessoas com tamanha capacidade de enganar pessoas e ainda se fazerem de “santinhas” e “inocentes” como quem nunca fez nada e não sabe de nada? Pode ser uma bela escola de teatro que tais pessoas participam porque para mim é impossível imaginar.
Ainda na conversa com esta minha nova senhora amiga, revelei a ela que sou também dessas pessoas que não esquecem facilmente as traições e que leva muito tempo para conseguir perdoá-las. As feridas ficam abertas e ao menor grão de poeira elas sangram freneticamente.  
Pois é, eu sou assim, e por não esquecer esses sentimentos ruins e, o pior, ainda cultivá-los, fico mal, choro sozinha, escrevo meus desabafos, e, quando a raiva toma conta, penso que não há nada que o tempo e a distância não possam curar. Novos amigos e amigas virão em cada nova investida da minha vida e novamente as alegrias e decepções estarão juntas.
Amarei para sempre aqueles que são verdadeiros, jamais esquecerei as falsidade.